Crise Energética
O SR. LUIZ ANTONIO FLEURY (Bloco/PTB-SP.
Sem revisão do orador.)
- Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, venho hoje à tribuna
da Casa tecer algumas considerações a respeito da situação
emergencial que vive o nosso País, em face da crise que se abateu
sobre o setor energético. E quando surgiu esse problema nós
ouvimos diversas manifestações atribuindo a responsabilidade à falta
de chuvas, ou seja, colocando a culpa em São Pedro.
Sr. Presidente, São Pedro tem de ser inocentado. Não é este
Pedro o responsável, porque o responsável é outro
Pedro, o Pedro Malan. S.Exa., ao adotar política exclusivamente
de obediência ao Fundo Monetário Internacional, impediu
fossem feitos investimentos necessários a fim de que a crise pudesse
ser evitada. Mas há outro Pedro também, o Ministro Pedro
Parente, que foi alertado várias vezes para a crise que se avizinhava.
Infelizmente há um parente, que não é o Pedro, mas
genro do Presidente da República, que veio a público fazer
declarações absolutamente sem fundamento e ofensivas. S.Exa.
ameaçou os brasileiros ao dizer que quem entrasse na Justiça
ganharia um apagão. E afirmou que os juízes estavam em
Marte se pensavam que conseguiriam, através de liminares, restabelecer
a energia.
Ouvimos declarações do Secretário de Energia de
São Paulo afirmando - pasme, meu caro Deputado Dr. Hélio
- que haveria banda de música para cortar a luz daqueles que não
cumprissem as metas estabelecidas.
Sr. Presidente, é preciso deixar bem claro que
estamos assistindo à crônica
de uma crise anunciada. Já se sabia - e há muito tempo
- que se o País voltasse a crescer, nossas reservas seriam incapazes
de suportar tal crescimento.
Digo isso com a autoridade de quem governou
o Estado de São Paulo
e verificou que, nos dez anos anteriores à minha gestão,
apenas uma turbina havia sido posta em operação em São
Paulo, embora, desde 1982, o Estado tivesse dado início à construção
de quatro usinas hidrelétricas: Porto Primavera, Rosana, Taquarussu
e Três Irmãos.
Atentos a isso fizemos um grande trabalho junto a CESP, grande companhia
que dispõe de corpo técnico altamente competente, a fim
de conseguir, através do lançamento de títulos
de energia na Bolsa de Mercantil e Futuros, colocar em funcionamento
nove turbinas hidrelétricas nas usinas de Rosana, Taquarussu,
Três Irmãos e também em Mogi-Guaçu, gerando
aproximadamente 800 megawatts de potência adicional.
Não nos preocupamos em colocar todas as turbinas,
mas as que geravam energia firme. Não colocamos as chamadas turbinas
de ponta, que são as de reserva. E ouvimos, na Comissão
Geral que se instalou nesta Casa, a afirmação de que as
usinas não
estavam funcionando. Estavam sim, e gerando 800 megawatts. E foram colocadas
turbinas de reserva que não acrescentaram nenhum megawatt ou nenhum
quilowatt a mais em matéria de potência.
Retomamos as obras e terminamos a obra civil de Porto Primavera. E fizemos
a segunda fase de desvio do rio. Primeiro o rio é desviado para
que se faça a obra civil. E depois ele retorna ao seu leito
natural. Então, Sr. Presidente, fazíamos isso prevendo
que poderíamos chegar a essa situação.
Lamentavelmente as obras de Porto Primavera foram paralisadas, retomadas
em 1998, mas só em 2000 começaram a girar as primeiras
turbinas de Porto Primavera. E se tivessem dado continuidade à obra
em 1997, todas elas estariam acrescentando cerca de 1 milhão
e meio de megawatts de potência, o que poderia contribuir para
amenizar a crise.
Sr. Presidente, no ano passado tive a honra de presidir a Comissão
de Minas e Energia. A Comissão realizou seminário que se
chamava "Colapso Energético no Brasil e Alternativas Futuras",
em 14 de junho do ano 2000. Cartas foram enviadas a todas as autoridades
do setor de energia alertando para o colapso iminente que se aproximava.
Infelizmente só agora, no calor da crise, medidas propostas, como
financiamento para a instalação de usinas que utilizassem
o bagaço da cana-de-açúcar - iniciativa também
adotada em São Paulo com a co-geração pioneira que
fizemos de 1991 a 1994 -, financiamentos à energia eólica,
solar e de biomassa estão sendo incentivados.
Portanto, a responsabilidade da crise é a falta de investimentos
e o modelo inadequado adotado na privatização do sistema
elétrico brasileiro. Temos discutido essa questão em profundidade.
O modelo adotado na privatização começou pelas distribuidoras,
que foram vendidas e não têm cumprido suas metas de aumentar
a oferta de energia. No entanto, os órgãos reguladores
fazem questão que sejam cumpridos os contratos de financiamento
para o aumento anual de tarifas que lá está previsto -
aliás, superou a inflação no período dos últimos
6 anos -, mas não fazem questão de fiscalizar quando se
trata de metas a serem atingidas.
Ficamos surpresos quando ouvimos, reiteradas vezes, que o serviço
melhorou porque diminuíram as queixas. Ora, o que ocorreu no meu
Estado, principalmente no interior de São Paulo, foi o fechamento
de agências de atendimento ao consumidor. E o consumidor em São
Paulo, hoje, se quiser reclamar pessoalmente da CPFL privatizada, se
quiser reclamar de sua conta de luz, que já é complexa
por natureza, tem de sair da divisa, em Rubinéia, e percorrer
600 quilômetros para ir a Campinas. Criou-se o sistema do 0800,
mas nem todo brasileiro tem telefone.
Com isso, muita gente ficou sem poder reclamar. E o indicador de eficiência
- pasme, Sr. Presidente, - foi a diminuição do número
de reclamações. Ora, se não se tem como reclamar é evidente
que vai haver diminuição no número de reclamações.
A Nação está passando por um momento grave. Mesmo
assim, o povo brasileiro está dando um exemplo de cidadania, cortando
os gastos supérfluos, procurando economizar energia, mas, por
outro lado, não vemos por parte das autoridades encarregadas de
gerir a crise a mesma boa vontade.
Vejam que na Câmara de Gestão da Crise estão aqueles
que foram
incapazes de evitar a crise. Se foram incapazes de evitar que chegássemos
a esta situação, será que serão capazes de
gerir a crise por eles criada? Não vemos nesta Câmara de
Gestão a presença de representantes dos consumidores, que
têm muitas sugestões para dar, nem a presença de
representantes do Congresso Nacional.
As decisões são impostas de cima para baixo, quando na
verdade deveria ter sido feito o mea-culpa mostrando que o erro foi cometido.
A população brasileira está dando uma demonstração
de que colabora, sim, e muito, para que não tenhamos os apagões.
Foi preciso, Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, uma brutal reação
para que se modificasse a medida provisória que inicialmente proibia
ao consumidor prejudicado o acesso à Justiça. Mas num gesto
pouco comum, num gesto de humildade, que merece ser reconhecido - falta
ao atual Governo Federal a humildade de reconhecer os seus erros, de
discutir com as pessoas s soluções -, o Sr. Presidente
Fernando Henrique Cardoso voltou atrás e fez publicar uma nova
medida provisória, que resolve em parte a questão, já que
o ato continua inconstitucional, ao permitir que mesmo quem esteja pagando
a conta tenha a sua energia cortada.
O Código de Defesa do Consumidor proíbe isso. No entanto,
insiste-se em trazer o corte de energia. Não é só isso.
Diferenciou-se o consumidor residencial e a empresa. Revogou-se mais
uma fez a legislação de defesa do consumidor. É tão
claro o Código de Defesa do Consumidor, que me recuso a acreditar
que a questão tenha passado despercebida dos juristas das trevas.
Não contentes com o apagão, temos juristas que são
contra o acesso à Justiça.
O art. 2º do Código de Defesa do Consumidor diz que consumidor é toda
pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto
ou serviço como destinatário final.
Então, essa distinção de que o Código do
Consumidor só pode ser aplicado em relação às
pessoas físicas, ao consumidor residencial, e não pode
ser aplicado à pessoa jurídica, pois em relação
a esta se aplica o Código Civil, é absolutamente inconstitucional
e ilegal.
Mas, Sr. Presidente, isso decorre de uma visão punitiva, ou seja,
de querer punir a população pela falta de energia. Aliás,
não cabe à população qualquer responsabilidade.
A intenção é punir quem não merece. Seria
muito melhor para todos se, em vez de receber punições,
as decisões fossem no sentido da colaboração, da
soma de esforços de todos, porque ninguém quer ficar no
escuro. A população já demonstrou, em outras ocasiões,
que sabe colaborar. Mas, não, o que querem é punir, colocar
banda de música para cortar a luz de quem eventualmente não
cumprir as metas. Ora, só podem tomar atitudes dessa natureza
quem não têm responsabilidade pela crise. O Governo é o
responsável pela crise.
Queremos colaborar, mas sem receber ameaças. Não se pode
ameaçar o consumidor por uma crise que não foi causada
por ele. E o que é pior, em razão do desmonte feito nas
empresas privatizadas, sequer será possível fazer o corte
de luz por falta de pessoal especializado.
Basta verificarmos o número de acidentes ocorridos nas empresas
terceirizadas. Milhares de trabalhadores foram demitidos e não
foram contratadas outros profissionais capacitados para realizar um trabalho
de forma adequada.
Há demora na religação da rede quando acontece a
falta de energia em determinado setor. Seja em São Paulo, seja
no interior, a demora tem sido absurda. Em fevereiro último demoraram
onze horas para religar a rede no Pacaembu, bairro de classe média
onde moro. E nem havia chovido! Antes da privatização,
o tempo de espera para a religação chegava a quarenta minutos.
Vejo com muita tristeza essa política adotada pelo Governo, política
essa que se tem mostrado absolutamente inadequada e que tem penalizado
a população.
Gostaria de saudar a CUT, a Força Sindical e a FIESP, que criaram
uma câmara para discutir o problema, já que a Câmara
de Gestão não tem representante dos consumidores, do cidadão.
Ela quer impor decisões e não discutir. Nós queremos
colaborar.Todo mundo já sabe quem são os culpados.
Alertávamos para o fato de que era preciso liberar Furnas, para
que houvesse investimento do setor público em geração
de energia e linhas de transmissão. Mas o modelo adotado foi o
da venda de usinas que já dispúnhamos e não o de
abrir outras concessões para que fossem instaladas novas usinas
geradoras de energia para o nosso País.
Concedo o parte, primeiramente, ao Deputado Dr. Hélio, em seguida
ao Deputado Medeiros.
O Sr. Dr. Hélio - Deputado Luiz Antonio Fleury, em primeiro lugar
gostaria de parabenizá-lo pela forma profunda, clara, transparente,
didática com que V.Exa. discorre sobre a crise energética,
o "apagão", por que passa o País. V.Exa. deixa
evidente que, neste momento, não vamos buscar somente os culpados,
os responsáveis ou irresponsáveis. Não, temos que
ir adiante. Temos de buscar formas de proteger a nossa população.
A classe trabalhadora, o pessoal vinculado aos sindicatos, as indústrias
têm como se mobilizar e buscar serem atendidos por esses órgãos.
Agora, a maioria da população não tem a quem recorrer.
V.Exa. deu um exemplo histórico, quando foi Governador do Estado
de São Paulo, de que as empresas públicas de energia tinham
a obrigação de estarem próximo ao povo, atendendo
as suas necessidades, dando suas justificativas, inclusive se comprometendo
a corrigir seus erros de maneira muito rápida. Privatizaram, retiraram
da população o papel que cabe à instituição,
que é o de dar uma resposta rápida e buscar corrigir imediatamente
os erros. Agora cabe à Comissão de Minas e Energia e a
nós, Parlamentares, que representamos o povo, criar mecanismos
para fiscalizar isso cotidianamente, a fim de não permitir que
mais uma vez o povo pague a conta. Parabéns a V.Exa. pela forma
brilhante com que abordou o problema do apagão energético
em País.
O SR. LUIZ ANTONIO FLEURY - Muito obrigado, Deputado Dr. Hélio.
Ouço, com prazer, o Deputado Medeiros.
O Sr. Medeiros - Deputado Luiz Antonio Fleury, cumprimento V.Exa. pela
forma profunda e brilhante com que aborda a questão do apagão
e dos prejuízos que isso trará aos consumidores e ao
povo brasileiro. Os prejuízos serão maiores do que avaliamos,
Sras. e Srs. Deputados. Ao lado de pessoas que estão perdendo
o emprego - não só os que estão acampados em frente
do Ministério da Fazenda, em São Paulo, da Força
Sindical, da Lorenzetti, da ducha Corona -, centenas de trabalhadores
vão perder o emprego não por ineficiência da empresa,
mas em razão da crise de energia. Tenho informação
de que muitos trabalhadores de padaria já estão perdendo
o emprego. Conheço donos de padaria que estão despedindo
seus empregados porque vão ter de desligar o forno elétrico.
Muitos trabalhadores de pequena e microempresas estão sendo
despedidos sem receber direitos trabalhistas a que fazem jus. E qual é a
alegação?
A alegação dos empresários é que eles não
estão mandando seus funcionários embora por livre e espontânea
vontade ou porque eles foram incompetentes, por terem se arriscado no
mercado, mas porque o Governo foi incompetente, por motivo de força
maior. Portanto, os trabalhadores estão perdendo seu emprego.
Por isso, quero cumprimentá-lo e fazer minhas as palavras de V.Exa.
e falar da nossa indignação com relação à forma
com que o nosso País e a questão da energia estão
sendo tratados. Quero cumprimentá-lo mais uma vez pelo brilhante
discurso sobre a questão energética.
O SR. LUIZ ANTONIO FLEURY (Bloco/PTB-SP. Sem revisão do orador.)
-Muito obrigado, Deputado Medeiros.
O Sr. Lincoln Portela - V.Exa. concede-me um aparte?
O SR. LUIZ ANTONIO FLEURY - Com todo o prazer, Deputado Lincoln Portela.
O Sr. Lincoln Portela - Deputado, ontem o Deputado Enio Bacci fazia um
pronunciamento também sobre o problema energético. Eu
pedi um aparte e citei o nome de V.Exa. como Presidente da Comissão
de Minas e Energia, parabenizando o trabalho e os avisos que aquela
Comissão, por intermédio da pessoa de V.Exa. e dos seus
membros, estava dando ao Governo, que não acenou em retorno
para aquela Comissão. Estou aqui apenas para reiterar a palavra
de ontem, parabenizando V.Exa. pela sua conduta à frente da
Comissão de Minas e Energia e pelo belíssimo pronunciamento
de hoje.
O SR. LUIZ ANTONIO FLEURY (Bloco/PTB-SP. Sem revisão do orador.)
-Muito obrigado, Deputado.
V.Exa. fez parte da Comissão de Minas e Energia e teve oportunidade
de verificar que fizemos dois seminários. O título do primeiro
era "Colapso Energético no Brasil". E o representante
do operador nacional do sistema iniciou sua intervenção
dizendo que não havia colapso, que não havia previsão
de colapso e que aquele título era alarmista.
Nós estávamos avisando. Todo o mundo sabia que isso iria
acontecer. E o que vemos agora é que, se Furnas tivesse sido liberada
para fazer os linhões, e se a ELETRONORTE e a CHESF pudessem ter
dado esse tipo de contribuição, por certo a situação
que vivemos hoje teria sido amenizada.
Como disse, Deputado Lincoln Portela, desejamos que na Câmara de
Gestão haja representantes das centrais sindicais, dos empresários
brasileiros, da CNI, da Confederação Nacional do Comércio
e desta Casa, caso contrário as pessoas que não forem capazes
de evitar a crise continuarão discutindo entre si e não
produzirão uma solução.
Uma questão me parece fundamental: não podemos admitir
a privatização do setor de geração de energia,
enquanto não se resolver o problema da falta de energia neste
País. Vender a CESP agora corresponde a vendê-la na bacia
das almas, por um preço abaixo de seu valor real. É preciso
suspender a venda dos ativos da geração de energia, até que
haja oferta maior de energia no Brasil. Do contrário, continuaremos
transferindo os megawatts de dono e não geraremos mais energia
para o nosso País. São essas as duas propostas. Queremos
colaborar.
O Governo errou, e muito. Agora tem que descer do Olimpo e ouvir. Se
queremos a participação da sociedade, vamos ouvi-la e
não baixar medidas inconstitucionais. Devemos tomar providências
em conjunto com a população. Não podemos ter atitude
de soberba, de quem sabe tudo. Precisamos, sim, participar desse esforço.
Infelizmente, Sr. Presidente, isso não acontece em nenhum setor.
Presidimos a Comissão que acompanha a apuração do
acidente ocorrido na Plataforma P-36, que afundou. Na P-36, vemos que,
em razão da política de terceirização, dessa
política malfadada, adotada pela diretoria da empresa, vários
funcionários morreram.
Precisamos e vamos colaborar. O povo brasileiro vai colaborar porque
tem consciência de sua cidadania, mas ele não pode ser punido
por uma situação em que não lhe cabe nenhuma responsabilidade.
Os responsáveis maiores por essa situação não
têm autoridade moral para cobrar do povo brasileiro qualquer atitude.
Dizem que a sobretaxa acabou. Mas qual a natureza jurídica? Multa,
que, disseram, não iria ser aplicada.
Queremos colaborar não através do garrote, da punição,
mas da consciência de cidadania que o povo brasileiro possui. E
mais, não privatizaremos nada até que tenhamos a solução
para esse problema.
Muito obrigado a V.Exa., Sr. Presidente.
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