Encontro de Prefeitos
Discurso proferido pelo Deputado LUIZ ANTONIO FLEURY por ocasião
do I Encontro Nacional dos Prefeitos e Vice-Prefeitos do PTB realizado
em Brasília nos dias 9 e 10 de fevereiro de 2001.
Os anos 90 foram marcados por profundas transformações
sociais, políticas e econômicas, no Brasil e no mundo. Estabilização,
globalização, privatização, equilíbrio
de contas, dentre outros, foram fatos que modificaram as relações
entre capital e trabalho, países ricos e pobres, grupos privilegiados
e a grande massa de excluídos.
O neo-liberalismo, a auto-regulamentação dos mercados,
a reverência servil a modelos importados, empolgaram as elites
dirigentes do nosso País, levando-nos a adotar um novo modelo
econômico, baseado em premissas que, a princípio, eram indiscutíveis,
sob pena de se acusar a voz discordante de sacrilégio. Dogmas
foram estabelecidos. Sob uma aparente visão de "modernidade",
erigiu-se a moeda e sua estabilidade como fins em si mesmos, a absoluta
abertura do nosso mercado ao comércio internacional como mandamento
obrigatório, sem qualquer cuidado ou proteção à produção
nacional.
Ao mesmo tempo, o princípio da lei do livre comércio, o
modelo de estado mínimo, o reinado absoluto do Banco Central e
o poder incontestável de uma equipe econômica elevaram a
extremos a arrogância e a pretensão de alguns "iluminados",
que, a partir de algum tempo, passaram a decidir apenas para satisfazer
suas vaidades, sem peias, levando à ruína os que ousavam
contestar suas "divinas" previsões, escolhendo a quem
ajudar com todas as benesses e a quem prejudicar com todas as forças.
Tal desequilíbrio acabou levando aos escândalos dos bancos
Marka e Fonte Cindam, a intervenções políticas em
instituições financeiras e quase nos levou à bancarrota,
na crise cambial em que o então Presidente do Banco Central, como
se fosse um garoto mimado, o geniozinho contrariado, ousou arriscar as
nossas reservas internacionais, apenas para tentar demonstrar o acerto
de suas teorias, que, na prática, caíram por terra.
Ainda nos anos 90, fizemos a privatização de nossas empresas
públicas, muitas vezes sub-avaliadas, a preço vil. E o
fizemos sob premissas que jamais se tornaram realidade. Dizia-se que
as privatizações levariam à melhoria da qualidade
dos serviços. Não foi o que aconteceu. Os "apagões",
os ineficientes celulares, a enorme quantidade de reclamações
contra as concessionárias privadas, que abarrotam os juizados
especiais, mostram-nos o que ocorreu. Dizia-se também que novos
empregos seriam criados, mas o que se assistiu foi a demissão
em massa de milhares de trabalhadores qualificados e a contratação
de levas e levas de técnicos estrangeiros, numa nova horda de
imigrantes que aportaram em nosso País, tirando empregos de brasileiros
e levando à falência empresas nacionais fornecedoras de
concessionárias que foram adquiridas por multinacionais, que trouxeram
consigo seus fornecedores, pagando-lhes, às vezes, preços
maiores que os dos similares nacionais. E as tarifas, que iriam diminuir?
De acordo com a FIPE, no período de julho de 1994 a agosto de
2000, o IPC ficou em 86,26%, enquanto que a tarifa de energia elétrica
subiu 92,08%, o álcool combustível subiu 123,01%, a tarifa
de água subiu 122,15%, a gasolina subiu 167,07% os transportes
coletivos subiram 171,56%, o gás de botijão subiu 225,98%
e a conta de telefone subiu 394,46%.
E é preciso não esquecer que, em várias ocasiões,
a privatização se fez com o uso de dinheiro público.
Os fundos de pensão estatais e o BNDES prodigamente participaram
dos empreendimentos, emprestando, a juros subsidiados, às empresas
estrangeiras que quisessem adquirir o nosso patrimônio, enquanto
os produtores nacionais continuavam a enfrentar dificuldades para obter
recursos que lhes financiassem a expansão e lhes dessem condições
de competitividade.
É
hora de parar para p
ensar. Vamos analisar o processo das privatizações, não
sob o ângulo do Estado, mas sob o foco de interesse dos brasileiros. É este
o modelo que desejamos? Quais os erros e eventuais acertos praticados?
E a nossa dívida pública, que deveria ter diminuído
com a venda dos nossos ativos, por que cresceu cerca de 500%? Antes de
novas privatizações (ou mesmo de novas concessões
- vide o preço dos pedágios), estas e tantas outras questões
precisam ser respondidas. Furnas, Eletronorte, Tucuruí, Banco
do Brasil, CEF, Petrobrás (e não Brax): privatizar para
que? Não. Não é o caso, nem é a hora.
E o que dizer da globalização?
O recente episódio da "vaca louca" nos demonstra bem
o que significa a globalização. Os países mais ricos
querem que nós, países em desenvolvimento ou países
pobres, possamos crescer até que os nossos mercados consumidores
possam melhor e mais absorver seus produtos. Mas não nos querem
parceiros, muito menos competidores. Quando se sentem ameaçados,
reagem com medidas protecionistas (que repudiam como ameaças à livre
concorrência, quando por nós praticadas) taxam nossos produtos,
acusam-nos de subsidiar nossas exportações (mas não
deixam de subsidiar os seus produtos) e, como fez o Canadá, mentem,
criam barreiras sanitárias, ofendem e difamam, enquanto nós
fazemos o papel de bonzinhos, ingênuos seguidores de uma cartilha
que só lhes traz vantagens. Agimos como se estivéssemos
nas Olimpíadas pré-profissionais, como se o importante
fosse apenas participar, sabendo que os adversários são
profissionais e não querem competir, querem vencer a todo custo
e a qualquer risco. Abrimos nossa economia ao comércio internacional
sem qualquer mecanismo de proteção ao produtor nacional.
Cedemos às pressões dos outros países, sem nada
exigir em troca. De duas, uma: ou somos ingênuos, e não
temos condições de entrar nesse jogo, ou a tibieza do governo
brasileiro é o que estimula os nossos adversários.
Para atender o Canadá, até mudamos a lei para permitir
que seqüestradores canadenses pudessem deixar o nosso País,
sem cumprir a pena integral a que foram condenados. Vimos altas autoridades
do nosso governo, até o Ministro da Justiça, cobrando do
Congresso rapidez na aprovação de mudanças legislativas,
para atender os interesses do nosso "querido parceiro canadense".
Ficamos de quatro, e, agora, recebemos em troca, por mera suspeita teórica,
a retaliação que está afetando a exportação
de carne brasileira para vários países do mundo.
Esta é a visão dos países ricos, sobre a globalização.
Não nos querem sócios do fechado clube a que pertencem;
querem que sejamos apenas convidados para as festas, mas que fiquemos
nos salões inferiores, nas senzalas, comprando o que eles produzem,
sem restrições, e nos contentando com as migalhas que nos
deixam, com as sobras dos mercados que eles não conseguirem satisfazer.
Senhor Presidente, senhoras e senhores: peço que seja aprovada
moção dirigida ao Presidente Fernando Henrique Cardoso,
para que o Brasil não compareça a Quebec, para a discussão
da ALCA, caso o Canadá não volte atrás e nos peça
desculpas pelo que fez. Vamos jogar duro, criar as barreiras necessárias
para virar o quadro. Vamos verificar os prejuízos causados pela
irresponsável declaração dos canadenses e deles
cobrar os prejuízos causados às nossas exportações.
E, principalmente, vamos nos preparar adequadamente para os novos desafios
que surgirão. Na Olimpíada da Globalização,
vamos agir com profissionalismo, sem bom mocismo. No mundo da globalização,
o esporte é o vale-tudo, e não o jogo de damas. E só vencerá quem
estiver preparado para a luta e tiver instrumentos para combater os golpes
baixos.
E é neste quadro, de tantas preocupações e de ausência
de definições, que o papel da classe política se
torna fundamental.
É
preciso reconhecer que o plano real nos trouxe consideráveis avanços.
O controle da inflação, a estabilidade da moeda, o equilíbrio
da economia são fatos incontestáveis. Mas, para nós,
o que mede o grau de cidadania de um povo, não é o valor
da sua moeda, e sim o valor de cada um dos brasileiros. Se podemos dizer
que avançamos, e muito, na área econômica, infelizmente
temos de reconhecer que pouco progredimos no campo social.
No início do plano real, com o aumento do salário-mínimo,
houve uma certa redistribuição de renda, que se perdeu
no tempo, pela descontinuidade dos programas desenvolvidos. E a distância
entre os mais ricos e os mais pobres aumentou. A concentração
de renda e o aumento brutal na carga tributária e nas tarifas
estão esmagando a classe média. O governo federal conseguiu
anular os efeitos da descentralização de receitas, obtida
na Constituição de 1988, com a criação de
impostos sem o repasse para estados e municípios, obrigando governadores
e prefeitos a virem a Brasília, com o pires na mão, a mendigar
as sobras orçamentárias ou extra-orçamentárias,
já que repassou os encargos, sem repassar as verbas necessárias
para cobrí-los.
Somos a favor da estabilização da moeda. Somos a favor
do absoluto equilíbrio das contas públicas, mas somos,
acima de tudo, a favor que o equilíbrio das contas se faça
sem prejudicar os serviços públicos essenciais, sem prejudicar
a população mais humilde, que não entende o que é gestão
fiscal, mas sabe o que lhe acontece quando falta comida na mesa, escola
para o seu filho e um emprego decente.
Queremos o equilíbrio das contas públicas, que se adote
a responsabilidade fiscal, mas que não impeçam os nosso
prefeitos de atender às necessidades urgentes dos nossos irmãos
mais sofridos. Que se puna a irresponsabilidade e a corrupção,
mas que não as confundam com situações emergenciais
de desemprego, fome e miséria, que, quase sempre, os governantes
têm que enfrentar. Que os números a serem perseguidos tenazmente
não sejam os dos superávits fiscais, e sim os números,
cada vez melhores, dos indicadores sociais.
E é por isso que o PTB, que quer construir um novo projeto para
o País, ao invés de se preocupar apenas com a Lei de Responsabilidade
Fiscal, deve, aqui e agora, começar a elaborar, com a ajuda de
todos, deputados, senadores, governadores, prefeitos, vice-prefeitos,
vereadores, mulheres, jovens, militantes, a nossa lei de responsabilidade
social. Será o nosso compromisso com a Nação brasileira,
compromisso que haveremos de honrar na prática das nossos administrações,
mostrando que, acima de qualquer lei, está a lei da responsabilidade
com o povo que nos elegeu, que nos obriga a concretizar a esperança
de um futuro melhor.
Nos governos do PTB, haverá compromissos a cumprir:
Educação: O País que sonhamos somente existirá com
a escola pública mudada, transformada em instrumento de igualdade
e de justiça social, dando ao filho do pobre as mesmas oportunidades
de vencer na vida que tem o filho do rico.
Ao término dos governos do PTB, não deverá haver
criança sem escola, escola sem professor, professor sem reconhecimento
profissional.
Saúde: Que significa também saneamento básico, que é prevenção
constante, vigilância diuturna e respeito absoluto ao meio ambiente,
Saúde que não pode continuar sendo um privilégio
de poucos.
Segurança: É o compromisso com a vida, com o fim do temor
do dia-a-dia. Para trabalhar e produzir, o cidadão necessita de
paz e tranqüilidade, necessita que o Estado aja com energia e equilíbrio
contra qualquer infrator, seja quem for, doa a quem doer.
Habitação e Transportes.
Ter a sua casa própria, poder pisar no seu chão, ir e vir
com dignidade e conforto, são direitos do trabalhador. O exercício
pleno de tais direitos não pode mais esperar.
Criança: Cuidar da criança e da mãe, com a adequada
assistência pré-natal, com programas voltados para a voluntária
retirada das crianças das ruas, dando-lhes complemento alimentar,
merenda de qualidade, opções de lazer, prevenindo-as contra
as drogas, é obrigação de todos nós.
Idosos: Saber cuidar dos mais velhos, usar-lhes a experiência,
dar-lhes qualidade de vida e assistência adequada significa o amadurecimento
de um País. Cuidemos bem de quem cuidou de nós, para que
nos cuidem bem amanhã.
Portadores de Deficiência: A inclusão social dos portadores
de deficiência significa lhes possibilitar acesso à cidadania.
Cumprir tais compromissos significará combater efetivamente a
miséria e a desigualdade e é a tarefa que devemos nos propor
a assumir, em nome do nosso PTB.
Em nome de seu passado de lutas e de seu presente de realizações,
o PTB VAI DAR O EXEMPLO A ESTE PAÍS.
Do PTB partirá o brado de alerta. Vamos reunir as forças,
levantar a cabeça, com coragem e altivez, e dizer bem alto, de
uma vez por todas: basta! Chega de sofrimento, chega de indiferença!
Vamos, juntos, dizer não! Não à miséria,
não à fome, não ao desemprego.
Vamos mostrar que somente o incentivo à produção
e à geração de empregos é que podem nos dar
o horizonte que queremos. Vamos reunir os fiapos da esperança
e com eles tecer a bandeira do progresso com justiça social. O
PTB resiste, luta e vencerá, com otimismo, disposição
e iniciativa, na construção do país que sonhamos.
Quero, finalmente, meus amigos, ao encerrar, reiterar a minha profissão
de fé, o credo que orienta todos os dias de minha vida.
Creio no homem, na sua capacidade de produzir, de superar o egoísmo,
de cultivar a amizade, de vencer os seus defeitos, de utilizar suas virtudes
para tornar a sociedade livre e justa.
Creio em uma sociedade livre e justa, com oportunidade para todos, sem
privilégios, nem distinções, em que haja esperança
no futuro.
Creio no futuro, por vê-lo refletido nos olhos dos meus filhos,
límpido e transparente, por sentir sempre presente o companheirismo
de minha mulher, que já demonstrou a todos a fibra e a tenacidade
da mulher petebista, e por acreditar na família, razão
maior da minha vida.
Creio na vida, que vale a pena ser vivida como me foi ensinado por meus
pais, na simplicidade do dia-a-dia, com honestidade, trabalho, dedicação
e amor a Deus.
Creio em Deus, razão de todas as coisas. Creio na força
da fé, na fraternidade entre os homens e na construção
de um mundo melhor. Que Ele nos faça instrumentos de sua paz,
nos conduza no caminho certo e nos ilumine a todos.
Muito Obrigado.
Luiz Antonio Fleury Filho
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