O SR. LUIZ ANTONIO FLEURY (PTB-SP. Pela ordem. Sem revisão do
orador.)
- Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, era minha intenção
assomar à tribuna na condição de Procurador Parlamentar,
para esclarecer aos colegas a função do cargo: a defesa da
honra e da imagem da Instituição e dos Parlamentares.
Assumi a Procuradoria, de forma até inesperada, por designação
do Presidente João Paulo Cunha, que me fez antecipar a posse para acompanhar
um caso de repercussão nacional. A Procuradoria já se colocou à disposição
dos Deputados que foram vítimas de escuta ilegal para mover ação
de danos morais contra o Governo da Bahia.
Tinha a intenção de conversar com os colegas, e farei encaminhar
a eles uma cópia do que consiste a atuação do Procurador
Parlamentar.
Mas quis o destino, Sr. Presidente, que viesse a esta tribuna na data de hoje
para, lamentavelmente, dizer como atua a Procuradoria em caso que me envolve
pessoalmente. Antes de mais nada, esclareço que a revista ISTOÉ desta
semana publica reportagem com o título "A Vez do Corregedor" e
o subtítulo "Investigação do Ministério Público,
da PF e do FBI revela esquema de remessa ilegal do ex-Governador Fleury."
Sr. Presidente, recuso-me a acreditar que os três jornalistas assinantes
dessa matéria não saibam a diferença entre Corregedor e
Procurador Parlamentar. A referida matéria foi feita de forma sórdida,
eis que apenas na quinta-feira à noite - na sexta-feira a revista já circulava
- fui procurado para me manifestar a respeito do assunto.
Não sou Corregedor desta Casa; sou Procurador Parlamentar. E minha missão é exatamente
defender os colegas de ações, como as dessa revista, nas quais,
como vou demonstrar a partir de agora, não existe absolutamente nada,
nada de verdade.
Sr. Presidente, chama-me a atenção que a figura central da matéria
seja um cidadão chamado Hilário Sestini Júnior. Quem é esse
cidadão? Apresenta-se como empresário e fez denúncias envolvendo
minha pessoa, e a revista lhe dá credibilidade. Ora, a serviço
de quem esse cidadão está? Por que essa reportagem? Vou pedir aos
senhores que acompanhem comigo esta história, volto a repetir, sórdida.
Tal homem é réu confesso de contrabando de ouro. Mas não
está sendo processado por isso. Foi ainda condenado em ação
trabalhista por ser litigante de má-fé e ter falsificado documentos.
Trata-se de um falsário e praticante de extorsão. Essa é a
pessoa na qual se baseiam essas notícias.
Mas não é de hoje. Em política, sabemos, não existem
coincidências.
É bom esclarecer a S.Exas. que não estão cientes do assunto
que Hilário Sestini Júnior, conforme consta da sentença
trabalhista, assinou recibos falsos. Vou lê-la:
"
O requerente alterou a verdade dos fatos, além de ter juntado documentos
falsos ao processo, pelo que é considerado litigante de má-fé e
condenado ao pagamento da indenização, e remetido ofício
ao Ministério Público Federal para as providências que entender
cabíveis."
Pois esse é o acusador que merece da revista consideração
e crédito relativamente a suas palavras.
Não é a primeira vez que o assunto surge. Quando assumi a Presidência
da CPI do BANESPA, por mim requerida, contrariando vontade do Governo anterior,
esse cidadão - a serviço de quem, não sei - representou
ao Banco Central as mesmas denúncias que estão na revista. Mas
o Banco as arquivou. E eis aqui a prova do arquivamento. O tempo foi passando
e, a quarenta dias das eleições, uma emissora de televisão
destacou matéria sobre o mesmo assunto, sem nenhuma modificação,
durante 29 minutos e 56 segundos, o que me fez expedir documento que vou ler
aos senhores.
Sr. Presidente, peço que V.Exa. seja tolerante com o tempo, porque a honra
de uma pessoa não pode ser medida pelos minutos que ela tem para expor
tudo aquilo que aconteceu.
Fui apontado como sendo sócio oculto de uma empresa. Tive que fazer uma
divulgação sobre o assunto, esclarecendo que não sou e nunca
fui sócio da empresa. O próprio declarante, o próprio intrigante
- lembro, acusado de roubo e contrabando de ouro - diz não existir participação
formal minha em nenhuma empresa.
Declaro que nunca fui sócio de qualquer das empresas mencionadas nessa
reportagem.
O que me intriga é que desde 2001 isso acontece, mas o assunto só vem à baila
em determinados momentos. Vejam que, às vésperas das eleições,
foi abordado por uma emissora de televisão durante 29 minutos e 56 segundos.
Isso me levou a editar um documento e procurar divulgá-lo, não
com a atenção que a televisão deu ao caso, evidentemente,
mas esclarecendo também que, desde 2001, quando pela primeira vez o assunto
veio à tona, nunca fui ouvido a respeito. Até hoje ninguém
jamais me ouviu.
Estranhamente, essas notícias só surgiram após eu ter sido
eleito Presidente da CPI do BANESPA, e, como já disse, as denúncias
foram arquivadas pelo Banco Central. Mas eis que, às vésperas das
eleições, sem nenhum fato novo, surge novamente o fato, apenas
para me prejudicar.
Em 2001, o Sr. Hilário Sestini Júnior já havia feito essas
denúncias, mas aqui lembro uma vez mais que ele responde a processo criminal
por ter se apoderado de dezenas de quilos de ouro. Em seu primeiro depoimento,
em agosto de 2001, afirmou que eu teria sido sócio dessa empresa no período
de 1996 a 1999. Depois, mudou seu depoimento, e, em fevereiro de 2002, disse
que o período da sociedade se iniciara em 1990, para abranger o período
em que fui Governador - de 1991 a 1994.
Sr. Presidente, essa empresa foi constituída em 1991, e só em 1992
passou a ter como sócio o Sr. José Pascoal Costantini, empresário
e diretor da CIESP de São José do Rio Preto, homem sério
e respeitável, que negou e nega - e nem poderia ser de outra forma - que
tenha sido meu sócio.
Na reportagem, um ex-Juiz de Direito é citado. Mas ninguém se lembrou
de dizer que ele se demitiu porque respondia a processo, por apropriação
de depósitos judiciais, que poderia levá-lo à exoneração.
Sr. Presidente, eu mesmo distribuí esse documento. Graças a Deus
e ao povo do Estado de São Paulo, fui reeleito Deputado Federal.
O juiz que apreciou a representação do Ministério Público
simplesmente indeferiu-a, liminarmente. Em seu despacho, diz o seguinte:
"
O denunciante, embora tenha desempenhado durante sete anos a Diretoria Executiva
da empresa Atlas, não aponta fatos que indiquem a participação
do ex-Governador na prática das irregularidades ou na administração
dessas sociedades, nem indica quantias remetidas para o exterior em nome do
ex-Governador.
O denunciante, por ouvir dizer, teria feito afirmações, e essa
carência de dados causa estranheza, pois o denunciante era homem de confiança
do dono da empresa, que o colocou na direção da distribuidora,
dando-lhe poderes para viajar à Suíça e a Nova Iorque em
várias ocasiões.
Em suma, a denúncia feita por Hilário Sestini Júnior é acusação
carente de substância e deve ser examinada com redobrada cautela, porque
está relacionada ao litígio que o denunciante mantém com
o seu patrão perante a Justiça do Trabalho, litígio que
teve desdobramento na Justiça Criminal, onde o denunciante está sendo
submetido a processo por apropriação de 57 quilos de ouro. Leio:
"
Nos autos, não há fato preciso que indique ter havido apropriação
de recursos públicos que tenham sido entregues às rés e
remetidos para o exterior. A acusação feita pelo denunciante é genérica
e não tem força suficiente para servir de fundamento a uma decisão
judicial. "
Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, esta decisão, de 26 de agosto
de 2002, mereceu 5 minutos e 50 segundos nas televisões. Estou processando
duas emissoras por danos morais.
E não parou aí. Dada a decisão da Justiça, o Ministério
Público não recorre, conforma-se. Aqui está o documento
em que o Ministério Público afirma que não irá recorrer
da decisão.
Mas o Ministério Público fez uma representação criminal
ao Procurador-Geral da República, e, no dia 24 de fevereiro de 2003, essa
representação foi arquivada. Vejam o que diz o Sr. Procurador-Geral
da República na decisão de arquivamento :
"
Verifica-se a insuficiência de provas que corroborem as declarações
de Hilário Sestini Júnior, tendo em vista que seu depoimento se
encontra isolado nos autos. Pelo contrário, a militar contra as afirmações
de Hilário constam certidões da Junta Comercial do Estado de São
Paulo de que o Parlamentar não integra o quadro societário da Atlas
Distribuidora de Títulos e Valores, nem das outras empresas referidas
pelo declarante."
E conclui:
"
Da análise dos autos depreende-se que a representação movida
contra o Deputado Federal Luiz Antonio Fleury Filho não merece prosperar
diante de ausência de suporte indiciário mínimo de que algum
ilícito tenha sido praticado pelo Parlamentar, além de o representante,
o próprio Hilário Sestini Júnior, nos termos de declarações
de fls. 536, ter admitido que os fatos narrados não passaram de comentários
seus, o fazendo nos seguintes termos: 'O depoente jamais teve contato com documentos
que comprovassem a participação do ex-Governador na Corretora
ATLAS.'"
Agora volta o assunto, atingindo de forma direta e sórdida a minha honra,
a ponto de merecer o repúdio de todos nós.
A matéria desta vez intitula-se "A Vez do Corregedor" - ora,
não sou Corregedor! - e traz como subtítulo "Investigação
do Ministério Público revela o esquema de remessa ilegal do ex-Governador
Fleury" . E essa manchete está sendo repetida nas rádios de
São Paulo para que a população compre o pasquim que traz
a notícia.
Sr. Presidente, o que está escrito aqui não é diferente
do que já foi arquivado três vezes pelo Banco Central, pela Justiça
Estadual e pelo Procurador-Geral da República. Não existe um fato
novo, mas, mesmo assim, dá-se valor à palavra desse criminoso
que joga lama em cima de pessoas como este Parlamentar.
Sr. Presidente, as acusações não me farão desistir
do trabalho nesta Casa. Ao contrário, reafirmo a todos os meus pares que
qualquer Deputado vítima desse tipo de acusação encontrará no
Procurador Parlamentar uma pessoa disposta a levar adiante toda e qualquer ação
necessária para a defesa da sua honra e dignidade, bem como da grandeza
desta Casa.
Sr. Presidente, para que não paire nenhuma dúvida sobre o que acabo
de afirmar, estou autorizando o Ministro da Justiça a abrir as tais
duas contas de que me acusam de manter no exterior.
Autorizo, por intermédio do Presidente, que o Delta Bank de Miami, caso
a conta 60097 pertença a mim ou a qualquer empresa em cujo contrato social
conste o meu nome, forneça ao Ministério da Justiça os dados
relativos a sua movimentação, bem como o nome de todos os seus
titulares.
Autorizo, por intermédio do Presidente, que o banco UBS, caso a conta
280933, da agência de Nova Iorque, pertença a mim ou a qualquer
empresa em cujo contrato social conste o meu nome, forneça ao Ministério
da Justiça os dados relativos a sua movimentação e o nome
de todos os seus titulares.
Não tenho medo dessa investigação, Sr. Presidente, porque
não possuo conta no exterior. Jamais remeti recursos ao exterior. O que
me enoja, o que me revolta, é constatar que não se deram sequer
ao trabalho de verificar que cargo eu ocupo nesta Casa. "A Vez do Corregedor"...
Ora, Corregedor é o Deputado Luiz Piauhylino, que não tem nada
a ver com tudo isso. Ele é que é o Corregedor da Câmara
dos Deputados.
Sou, com muito orgulho, Procurador Parlamentar desta Casa, à qual tenho
a honra de pertencer.
Sr. Presidente, estou entrando com ação por danos morais contra
a revista ISTOÉ , que, na reportagem, refere-se a um recibo que, na verdade,
não é recibo; são dados assinados pelo próprio
denunciante.
Vejam: este é o recibo. Como é que ele veio parar nas minhas mãos?
Nove dias antes que esse cidadão fizesse o primeiro pronunciamento, isto
chegou às minhas mãos. Provavelmente, acharam que eu iria ceder à chantagem
e à pressão. Não cedi e não cedo!
Sr. Presidente, espero que realmente se faça justiça.
Vou solicitar ao Sr. Ministro da Justiça que me receba, para que eu possa
entregar-lhe essas autorizações para que abram minha conta. O FBI
não precisa investigar. Se quiser, que investigue também. Nada
tenho a temer, a não ser o fato de que alguns membros do Ministério
Público e alguns investigadores estejam se baseando na palavra de um
confesso contrabandista de ouro, de um bandido, que procura enlamear a figura
deste Procurador
Parlamentar.
Não haverá recuo de minha parte. Já processei outros órgãos
de imprensa. Não tenho nem terei receio. Vou recorrer a meus advogados
para as providências cabíveis para não dizerem que estou
utilizando a Procuradoria Parlamentar em proveito próprio.
Quero dizer a S.Exas. que a Procuradoria Parlamentar estará à disposição
dos Srs. Deputados, caso algum dia sejam vítimas de uma canalhice desse
tipo, que afronta a dignidade de um homem público que desde 1995 tem seus
sigilo bancário e fiscal quebrado.
Sr. Presidente, já sofri vários processos, e nada se provou porque
nada há a esconder. Já fui absolvido praticamente na maioria deles.
E, no momento em que passo a ocupar cargo importante para dignificar esta Casa,
tentam me intimidar. Não vão conseguir!
Faço questão de que essa investigação vá até o
final. Não se pode lançar lama em cima das pessoas dessa maneira!
Afirmam que eu teria enviado 15 milhões de dólares para o exterior.
Sr. Presidente, de 1996 a 1999, não ocupei qualquer cargo público.
Onde estava esse dinheiro? Será que estava no colchão, para depois
ser enviado ao exterior?
Não há nenhum fundamento nisso. Aliás, o único fundamento é a
sordidez, a canalhice e o aviltamento da honra das pessoas.
Portanto, em nome dos meus eleitores, desta Casa e dos meus filhos, que não
merecem esse tipo de coisa, é que venho fazer esse desabafo.
O SR. PRESIDENTE (João Paulo Cunha) - Deputado Luiz Antonio Fleury, V.Exa. é o
nosso Procurador e temos certeza de que continuará defendendo a nossa
Casa sempre que for preciso.
V.Exa. pode contar com nossa solidariedade na sua defesa.
O SR. LUIZ ANTONIO FLEURY - Muito obrigado, Sr. Presidente.
|