Direito
de defesa
Luiz
Antonio Fleury Filho*
Durante
muito tempo, foi disseminada no Brasil a idéia de
que a violência e o banditismo eram filhos da miséria.
Como se os pobres fossem mais violentos que os ricos e a
condição social de cada um determinasse quem
seria criminoso e quem estaria ao lado da lei.
A idéia de que o bandido é vítima da
sociedade, por ser pobre e oprimido, não passa de
um grande equívoco. Mas foi a partir desta visão
equivocada que parte da intelectualidade brasileira construiu
o discurso sobre os direitos humanos e pautou sua ação
política.
Para os defensores deste ponto de vista, o exercício
da autoridade passou a ser confundido com prática
do autoritarismo e a polícia tornou-se a face violenta
do Estado. Agora, diante dos atos de terror que pararam
São Paulo de 12 a 15 de maio, creio que muitos irão
parar e refletir um pouco sobre os equívocos e as
injustiças cometidas durante décadas contra
aqueles que têm a missão de defender a sociedade
e zelar pela ordem pública.
A cidade de São Paulo e sua população
foram brutalmente agredidas. Policiais civis e militares
assassinados covardemente, muitos deles pelas costas, sem
chance de defesa. Mães perderam seus filhos, famílias
foram destruídas. Os meios de comunicação
mostraram quem eram esses homens que morreram defendendo
São Paulo e sua gente.
Pessoas do povo, com sonhos, esperanças. Gente que
lutava para construir uma vida digna, criar seus filhos,
estudar. Mesmo tendo sido assassinados covardemente, mesmo
tendo morrido para poupar a vida de milhares de inocentes,
estes homens não receberam a solidariedade merecida
dos chamados defensores dos direitos humanos.
Esta distorção de valores fica ainda mais
evidente ao verificarmos que o "comandante" desta
onda de violência chegou a ser tratado como herói
por gente que se diz de bem. Alguns deles, pasmem, até
exaltaram a inteligência, a capacidade de articulação
e de liderança de um assassino.
Polícia alguma está livre de cometer excessos.
Eles acontecem nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia
ou em qualquer parte do planeta onde exista Estado. Portanto,
em São Paulo não é diferente. Mas os
excessos não são regra.
O filósofo inglês Thomas Hobbes, autor do livro
Leviatã, dizia que, quando o Estado perde a capacidade
de defender seus cidadãos, estes não lhe devem
mais obediência. Este, para Hobbes, é um direito
fundamental do ser humano; o direito de se recusar a morrer.
O Estado, portanto, não pode jamais abrir mão
da obrigação de defender a sociedade usando
a força legítima, legal e intransferível
que é delegada pelo povo aos governantes eleitos
democraticamente. E é através da polícia
que esta defesa é exercida, porque a ela cabe a função
de proteger o homem de bem, que trabalha, paga impostos
e garante a sobrevivência da sociedade.
Os problemas sociais enfrentados pelo Brasil - e por muitos
outros países emergentes - não podem servir
de empecilho para a defesa dos cidadãos, sejam eles
pobres ou ricos, educados ou ignorantes.
Por isso, a essência dos direitos humanos no Brasil
passa pela garantia da cidadania plena, pelo acesso à
educação, à saúde e, principalmente,
à liberdade, hoje subtraída do cidadão
submetido à ditadura dos criminosos que controlam
favelas e bairros pobres da periferia de São Paulo.
Diante da imensa dor que os ataques de maio causaram ao
povo de São Paulo e diante das conseqüências
ainda imprevisíveis deste trauma, antigos valores
e conceitos precisam mais do que nunca ser revistos para
que o cidadão possa ter garantido o seu direito de
defesa.
*Luiz
Antonio Fleury Filho é deputado federal (PTB), ex-governador
de São Paulo, ex-Secretário de Segurança
Pública e promotor público aposentado.