| O SR. LUIZ ANTONIO FLEURY (PTB-SP. Pronuncia o seguinte discurso.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, numa sociedade carente como a nossa, a atividade política impõe a freqüente abordagem de questões complexas, que reclamam grandes esforços dos homens públicos para sua solução. Em geral, tão logo conseguimos equacionar adequadamente algum assunto, outras dificuldades já estão à espera, a exigir mais e mais de todos nós.
Em algumas poucas ocasiões, entretanto, temos a oportunidade de trazer a esta tribuna temas mais amenos e mostrar aspectos especialmente bonitos do País que amamos, valorizando o Brasil talentoso, o Brasil que surpreende e encanta o mundo. É o que desejo fazer hoje, ao assinalar, com muita alegria, o transcurso dos 90 anos de Tomie Ohtake, apropriadamente chamada de "a dama das artes plásticas brasileiras".
De início, vale ressaltar que este registro não é simplesmente exaltação do passado, rememoração nostálgica. É também a celebração de um glorioso presente, pois ao completar 90 anos, em 21 de novembro de 2003, Tomie Ohtake se mantém em plena atividade, reconhecida como figura central da arte produzida no País e artista sempre capaz de se renovar. Como escreveu há algum tempo o crítico Agnaldo Farias, "sua poética, ao invés de declinar, germina em outras direções".
Numa evidência disso, agora mesmo, ao se transferir de São Paulo para o Rio de Janeiro a exposição comemorativa de seu nonagésimo aniversário, foram acrescidas à mostra duas obras. São grandes telas recém-concluídas pela artista, que não deixa de criar, mesmo já tendo carreira consagrada por 28 prêmios e presença em 5 edições da Bienal de São Paulo, 50 exposições individuais e 85 coletivas no Brasil e no exterior.
Curiosamente, essa trajetória de sucesso começou um pouco tarde. Nascida em Kioto, no Japão, Tomie veio ao Brasil em 1936 apenas para visitar um irmão que morava em São Paulo, mas a iminência de guerra na Europa e na Ásia acabou por mantê-la aqui. Após a guerra, a dona de casa parecia distante da vida artística até que, em 1951, conheceu um pintor e professor de arte japonês que estava de passagem pelo Brasil. Orientada por ele, pintou seus primeiros quadros. E em 1953, em torno dos 40 anos, participou pela primeira vez de uma exposição, promovida por japoneses, em São Paulo. Era uma iniciante, mas recebeu do júri menção honrosa.
Novos prêmios viriam ainda na década de 50, assim como a primeira mostra individual, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1957.
Nos anos 60, Tomie naturaliza-se brasileira e demonstra maturidade cada vez maior em sua atividade. Passa a dominar também a gravura, com um trabalho inovador que já nos anos 70 obtém reconhecimento internacional, representado por convites para participar das Bienais de Veneza e Tóquio.
Ao mesmo tempo em que cresce como artista, ela alcança rara popularidade para quem conquista também o respaldo dos críticos mais importantes. A abertura de sua primeira retrospectiva no MASP, em 1983, atrai 4.000 pessoas, número até então inédito numa mostra individual. E ao enveredar para a escultura, com obras de grandes dimensões destinadas a espaços públicos, torna-se ainda mais conhecida da população em geral.
Hoje, 27 obras públicas de sua autoria fazem parte da paisagem urbana de cidades brasileiras, como os painéis do metrô e a escultura em concreto armado na Avenida 23 de Maio, em São Paulo. Além disso, a abertura do Instituto Tomie Ohtake, há 2 anos, na Capital paulista indica com clareza seu relevante papel nas artes plásticas do País, configurando homenagem incomum a uma artista em plena atividade.
Assim, Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, Tomie Ohtake é hoje glória brasileira, certamente muito maior do que o singelo retrato que tracei aqui. Um retrato sem a marca do talento que ela extravasa em todas as suas telas, sem as cores maravilhosas que caracterizam tantos de seus trabalhos, sem a grandeza de suas esculturas, mas com a imensa admiração que inspira em todos os que conhecem sua obra excepcional.
Muito obrigado.
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